‘Poucas pessoas leem, de fato, matérias sérias na internet’

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Pierre Omidyar, fundador do site e-Bay e agora um filantropo, apareceu com frequência nas notícias depois que foi revelado que ele estava patrocinando um novo site de notícias por 250 milhões de dólares. Se o vazamento sobre o novo projeto foi inesperado, o interesse de Omidyar em jornalismo e reportagens responsáveis não o foi. Desde que, em 2004, fundou, com sua mulher, Pam, a Rede Omidyar [Omidyar Network], ele patrocinou mais de duas dúzias de organizações que trabalham com mídia e transparência, incluindo o Instituto Poynter, a Fundação Sunlight e a Iniciativa por Transparência e Responsabilidade. E em 2010 ele criou e ajudou a construir o site Honolulu Civil Beat, que faz reportagens sobre assuntos públicos ao mesmo tempo em que permite aos cidadãos manterem-se informados sobre questões do governo.

Mas esses esforços são minimizados pela colaboração, ainda sem nome, com Glenn Greenwald (que trabalhava no Guardian, onde publicou os documentos da Agência Nacional de Segurança vazados por Edward Snowden), a cineasta Laura Poitras e Jeremy Scahill, do semanário The Nation. As revelações de Snowden, assim como seu profundo interesse pela compra do Washington Post na primavera passada, levaram Pierre Omidyar a decidir que este era um bom momento para colocar parte de sua fortuna – calculada em 8,5 bilhões de dólares, segundo a revista Forbes – por trás do projeto de um site de notícias de interesse geral, grande, com foco em reportagens investigativas e de responsabilidade governamental. Conversamos com Pierre Omidyar para uma coluna sobre o crescente interesse em conteúdo jornalístico sério por parte de pessoas que construíram sua riqueza no reino digital. O que se segue são trechos de uma entrevista por telefone, devidamente editada para ficar resumida e mais clara.

“As fontes têm medo de falar”

Você podia estar investindo seu tempo e seu dinheiro numa porção de coisas. Por que a mídia?

Pierre Omidyar – Minha formação é tecnológica por origem e por treinamento, mas meu foco está na filantropia. Uma das áreas-chave foi pegar as lições da tecnologia e aplicá-las no sentido de tornar o mundo melhor. E parte desse interesse conduziu-me à questão da transparência e responsabilidade do governo: como explicamos a uma audiência mais ampla o que o governo vem fazendo?

Vivemos no Havaí por sete anos e eu percebi uma lacuna na cobertura à medida que as redações iam se fundindo – houve uma redução concreta na capacidade de fazer reportagens e foi por isso que achei que era o ponto crítico para construir uma redação exclusivamente voltada para questões públicas. Eu queria sujar as mãos aprendendo o dia-a-dia do trabalho com jornalistas e editores para saber como a salsicha é feita. Por meio dessa experiência, vi em primeira mão o impacto que excelentes matérias investigativas têm em todos os níveis. Este, portanto, é o passo seguinte de uma viagem muito longa.

Este novo passo parece ter como foco o sigilo e a transparência. O que atraiu você nessa direção?

P.O. – Aconteceram algumas coisas. Mesmo antes dos vazamentos de Snowden, já havíamos visto coisas que eu classificaria como tropeços do Departamento de Justiça. Vimos o Departamento de Justiça botar escutas telefônicas na redação da Associated Press. Vimos o repórter James Rosen [da Fox News] ser etiquetado como co-conspirador em declaração juramentada; vimos as várias acusações contra vazamentos, inclusive pelo uso da Lei de Espionagem. Isso me alertou para o fato de que mesmo neste grande país que é o nosso, com esta fantástica Constituição que temos, continua havendo uma pressão concreta contra a liberdade de imprensa. Talvez sem pretender fazê-lo, na ânsia de coibir os vazamentos e de proteger segredos, acabamos pressionando a liberdade de imprensa. Quando você tem uma vigilância em massa, é impossível atender ao que pede a Primeira Emenda, pois os repórteres não podem falar com as fontes porque as fontes têm medo de falar.

“Os sistemas mudam a maneira pela qual o mundo funciona”

Por que, então, não enfrentar logo a coisa e comprar o Washington Post?

P.O. – Em maio, nos envolvemos profundamente no processo da compra do Washington Post. Em última instância, comecei a pensar sobre outros usos para esse montante de capital. No site Civil Beat, aprendi que boa parte do trabalho de dar continuidade a uma conversa é ter vozes que se baseiem na experiência, assim como na paixão pelo tema. Foi isso que me levou a pensar em pessoas como Glenn Greenwald, Laura Poitras e Jeremy Scahill. São pessoas que estão dispostas a ir à luta e fazê-lo de modo transparente, e não apenas emitir opiniões sem qualquer fundamento. Eles dizem “Veja, eu sei sobre isto assim-assim. Foi assim e assim que tomei conhecimento; aqui está o que consegui saber sobre a questão e eu vou lhe contar o que penso a respeito.”

E o que você traz para a mesa além do dinheiro?

P.O. – Pessoas que mexem com tecnologia enfrentam os problemas a partir da perspectiva de que o sistema funciona de uma determinada maneira e se eu entrar nesse sistema e conseguir mudar suas regras, posso fazê-lo funcionar de uma maneira diferente. É o caso do Google, do Facebook, do Twitter ou do e-Bay. Todos eles criaram sistemas que mudaram a maneira pela qual o mundo funciona numa extensão muito ampla. E eu adiantaria a hipótese de que talvez parte do interesse pela mídia seja o reflexo de um desejo de estar envolvido no mundo.

“Ainda é muito cedo [para falar do projeto]”

Fazendo o quê?

P.O. – Queremos fazer um trabalho melhor trazendo matérias investigativas importantes ou matérias profundamente humanas que tendem a não ser vistas por uma audiência maior e podemos usar a tecnologia para descobrir como fazê-lo. Não é tão simples assim como jogar uma coisa que seja importante na cara delas. Isso seria fazer como o serviço público e provavelmente seria ignorado.

O pessoal da tecnologia compreende nossos usuários e analisa o aumento de envolvimento desde uma pessoa que experimenta o produto e vai embora para um outro tipo de pessoa que, progressivamente, vai se envolvendo cada vez mais até ficar totalmente dependente do produto. Isso é algo que o pessoal do Vale do Silício passa um tempo sem fim analisando, examinando e refletindo.

Você acha que jornalismo sério é economicamente viável?

P.O. – Por si próprio, é provável que não. O que aprendemos com nosso site no Havaí mostra como é difícil. Os anunciantes não querem por anúncios em matérias investigativas; é extremamente difícil que isso aconteça. E muito poucas pessoas leem, de fato, essas matérias sérias na internet. A audiência para as matérias mais importantes pode ser depressivamente pequena. Haverá sempre um núcleo de leitores dispostos a apoiar esse trabalho, mas é um percentual mínimo de uma sociedade muito mais ampla. Isso é parte do motivo de estarmos fazendo um site de interesse geral e de trabalhar no sentido de transformar uma audiência de interesse geral em cidadãos engajados.

E como é que anda a coisa?

P.O. – Ainda é muito cedo. Chegamos aqui de uma maneira inesperada, em termos de falar em público. Tem pouco mais de duas semanas que Glenn e eu estamos juntos no projeto.

Foi interessante ver Glenn Greenwald ter de lidar com as consequências de um vazamento…

P.O. – Foi, hmmm, muito irônico.

 

David Carr escreve sobre mídia e cultura no New York Times

 

Tradução de Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Informações de David Carr [“An Interview With Pierre Omidyar”, The New York Times, 21/10/13]

 

Observatório da Imprensa

 

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed770_poucas_pessoas_leem_de_fato_materias_serias_na_internet

 

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